Enxaqueca

É uma forma de cefaleia que atinge actualmente 10 a 15% da população adulta em todo o mundo, o equivalente a cerca de 600 milhões de pessoas. Esta perturbação pode chegar a comprometer seriamente o desenvolvimento normal das actividades laborais, escolares, domésticas, sociais e os tempos livres.
De facto, a natureza incapacitante da perturbação, a presença prolongada dos sintomas e a imprevisibilidade das crises têm um forte impacto sobre a qualidade de vida. Esta incapacidade psicológica e funcional persiste não apenas durante a crise, mas também nos períodos entre crises, pois é determinada pela preocupação de não saber quando ocorrerá a crise seguinte. Na prática, pode dar lugar a um fenómeno definido por “círculo vicioso”

Classificação

Independentemente da forma como se manifesta, todos a definem geralmente como “dor de cabeça”. Porém, na realidade, a doença assume um nome diferente conforme as características específicas da dor.
Para melhor definir este conceito, a Sociedade Internacional de Cefaleias catalogou diversas formas clínicas de cefaleia que, por sua vez, se agrupam em cefaleias primárias e secundárias.

CEFALEIAS PRIMÁRIAS

São todas as que não dependem de nenhuma doença existente, ou seja, são autónomas e apresentam dores ou distúrbios locais e/ou mal-estar geral. Destas fazem parte:

a) a enxaqueca (que representa a forma mais comum)

b) a cefaleia de tensão

c) a cefaleia em “cluster” 

a) A enxaqueca manifesta-se com uma dor latejante, de média ou forte intensidade, que pode atingir apenas uma parte do crânio, mas que pode estar localizada na nuca ou ser difusa, com duração variável entre poucas horas e três dias. Pode ainda ser antecedida de sintomas visíveis, chamados aura (visão enevoada, aparecimento de relâmpagos de luzes coloridas) e acompanhada de náuseas, vómitos, intolerância à luz (fotofobia) e aos sons (fonofobia). As cefaleias de tipo “enxaqueca” pioram quase sempre com a actividade física, ainda que ligeira, como por exemplo caminhar.

b) A cefaleia de tensão surge lentamente e provoca uma dor opressiva, de “capacete”, por vezes acompanhada de náuseas, que abrange toda a cabeça. Relativamente à enxaqueca, a intensidade da dor é menor. A cefaleia de tensão pode ser episódica ou crónica se a dor estiver presente durante mais de 180 dias por ano ou 15 dias por mês.

c) A forma mais rara de cefaleia é a cefaleia em “cluster”, caracterizada por dor intensa, semelhante a um óculo colocado dentro do olho e que penetra até ao cérebro. Atinge de forma prevalente os homens e afecta apenas um dos lados do rosto. A dor pode ser associada a vermelhidão de um olho, com lacrimejo e congestão nasal. As crises podem durar de 15 a 180 minutos, ocorrer várias vezes por dia e durante períodos de 30 a 40 dias consecutivos. As raras mulheres que sofrem destas cefaleias (cefaleia do suicídio) afirmam que a intensidade da dor é superior à do parto.

CEFALEIAS SECUNDÁRIAS

São o reflexo de uma patologia existente e a sua frequência ronda os 15 a 20% de todos os casos de cefaleia persistente. É indispensável diagnosticá-la com precisão, pois só melhora ou desaparece se a doença de que é manifestação for identificada e eliminada.
Entre as doenças que podem desencadear a cefaleia incluem-se a hipertensão arterial, a insuficiência hepática, renal ou pulmonar, a anemia, as intoxicações agudas ou crónicas, as doenças ósseas e articulares do crânio e do pescoço (artrose cervical), as doenças oftálmicas (como o glaucoma ou o estrabismo) e do nariz (sinusite), as doenças da boca e dos dentes (especialmente as cáries), da garganta (faringite, bronquite), dos ouvidos (otite) e as perturbações digestivas. A cefaleia por abuso de analgésicos também é bastante frequente.

Aparecimento

Geralmente, a enxaqueca manifesta-se pela primeira vez por volta dos 20 anos podendo, porém, ter início durante a infância. Os estudos sobre a enxaqueca demonstraram uma forte relação entre o sexo e a idade. Até à puberdade, a percentagem de homens e mulheres que sofre de enxaquecas é semelhante. No entanto, após o aparecimento da primeira menstruação, o número demulheres que sofre de enxaqueca aumenta relativamente aos homens até se tornar, na idade reprodutiva, três vezes mais comum nas mulheres. Todavia, estatísticas recentes demonstram que a percentagem de homens atingidos pela enxaqueca está a aumentar. Os homens sofrem mais frequentemente do que as mulheres de enxaqueca com aura, podendo ser atingidos mais facilmente por crises de enxaquecas ao fim de semana, que podem dever-se a um conjunto de factores, entre os quais o relaxamento depois do stress laboral, a hora do despertar e um menor consumo de cafeína. Cerca de metade dos homens que sofrem de enxaqueca são atingidos por mais de uma crise por mês e, durante esta crise, 82% dos homens ficam limitados nas suas actividades diárias normais.

Como se manifesta

A enxaqueca pode ser classificada de dois modos

– Enxaqueca sem aura 
Quem sofre desta doença tem normalmente cefaleias que duram de 4 a 72 horas, acompanhadas de náuseas e de um aumento da fotosensibilidade e/ou da fonosensibilidade, que podem recorrer (na prática, ter “recaídas”) algumas horas após o fim do efeito do fármaco.

– Enxaqueca com aura 
Também conhecida por enxaqueca “clássica”, é antecedida por um distúrbio neurológico, caracterizado por alterações dos campos visuais, como o aparecimento perante os olhos de relâmpagos de luzes coloridas e enevoamento da vista. Por vezes, o campo visual pode estreitar-se, dando a sensação de se estar a olhar por um óculo. Além disso, podem estar presentes perturbações neurológicas, como formigueiro ou entorpecimento das mãos e dos pés. Geralmente, os sintomas desenvolvem-se gradualmente num período de 5 a 20 minutos, não durando normalmente mais de 60 minutos. Na hora que antecede o aparecimento dos sintomas neurológicos da aura, surgem frequentemente cefaleias, náuseas, fotofobia.

Sintomas – Apresentação da Crise

A crise de enxaqueca pode subdividir-se em 4 fases bem distintas, todas elas correspondentes a situações fisiológicas e clínicas diversificadas:

– Fase 1: apresenta-se com sintomas premonitórios, ou seja, sensação de torpor e bocejos frequentes, irritabilidade, aborrecimento, por vezes dificuldade de expressão, sensação de fome de alimentos doces (sobretudo chocolate), que podem antecipar a crise até 24 horas.

– Fase 2 ou de aura: presente em 10 a 15% dos casos, manifesta-se com perturbações visuais (relâmpagos e escotomas de não visão), formigueiro, diminuição da sensibilidade cutânea, deficiência de coordenação da fala e lentidão do raciocínio psíquico ou mental. Estes sintomas regridem lentamente, dando lugar a uma dor aguda.

– Fase 3 ou de cefaleia: é o momento da dor, que atinge um dos lados da cabeça e surge frequentemente associada a náuseas, vómitos, fotofobia e sensação de mal-estar geral. A cefaleia, além disso, agudiza-se com o movimento e os esforços físicos, ainda que ligeiros. Esta fase dura entre 4 a 72 horas.

– Fase 4 ou de remissão: passada a dor, segue-se uma sensação de vazio e prostração física e mental.

Como Reconhecê-la

Em síntese, a enxaqueca tem características bem definidas, que podem resumir-se do seguinte modo:
– duração das crises de 4 a 72 horas
– dor localizada, frequentemente unilateral
– dor latejante, de intensidade média ou forte
– presença de um ou mais dos seguintes sintomas: náuseas,
vómitos, palidez, vertigens
– fotofobia e fonofobia
– frequência das crises: 1 a 3 por mês, na maior parte dos casos
– presença de aura em cerca de 15% dos casos