Pé diabético

As complicações tardias da diabetes – neuropatia periférica, arteriopatia e susceptibilidade às infecções – predispõem o diabético para o aparecimento de lesões nos pés que, por vezes podem ser graves.

Prevenção

Os doentes devem ser frequentemente avaliados através do exame clínico. A observação do pé deve ser sistemática, em cada consulta. Uma vez identificados os de maior risco, devem beneficiar de uma maior atenção no sentido de educação e vigilância destinadas a prevenir o aparecimento de lesões.
Os diabéticos com alto risco para o aparecimento de lesões nos pés são os que apresentam:? antecedentes de úlceras nos pés;
– neuropatia periférica;
– arteriopatia dos membros inferiores (má circulação);
– deformações dos pés.

Como saber se tem risco de lesões nos pés?

Não é a diabetes em si, mas sim as complicações da diabetes que fragilizam os pés.
Aas complicações são, por um lado a arteriopatia, isto é, alterações das paredes das artérias que levam o sangue e o oxigénio aos pés, e por outro, a neuropatia, ou seja, a lesão dos nervos dos pés e pernas.

Arteriopatia
A arteriopatia revela-se por vezes sob a forma de dor na barriga da perna durante a marcha. Tem-se uma sensação de ?peso que corta?, ao fim de algumas centenas de metros, aparecendo precocemente em subida e em marcha rápida. A dor obriga a suspender a marcha, desaparece em alguns minutos e é possível retomá-la.
Com frequência a arteriopatia do diabético é indolor. Manifesta-se clinicamente por uma diminuição ou ausência dos pulsos arteriais palpáveis ao nível do pé, a pele torna-se fina, frágil, sem pelos, enquanto as unhas se tornam espessas e quebradiças. Por vezes os pés estão mais frios que as pernas.

Neuropatia
Quando os nervos dos membros inferiores estão lesados pela diabetes perde-se a percepção ou sensibilidade ao nível dos pés, corre-se o risco de se ferir sem se aperceber. O próprio pode tentar avaliar a sensibilidade dos pés:
– sente bem o calor (a água quente do duche)?
– sente a frescura do chão da casa de banho, quando sai do duche?
– apercebe-se imediatamente de um corpo estranho, ou de uma costura saliente, nos seus sapatos?

Diabéticos sem arteriopatia nem neuropatia
Caso não tenha arteriopatia, nem neuropatia isto é, se os pulsos forem amplos, se a sensibilidade for completamente normal, ainda que seja diabético, o risco é menor. Deve ter os normais cuidados de higiene dos pés.
– Lavar os pés diariamente, secar bem entre os dedos para evitar a maceração da pele das zonas interdigitais. É aconselhável evitar imersões prolongadas dos pés.
– Mudar diariamente de meias
– Escolher sapatos confortáveis e em cabedal maleável
– Fazer todos os dias massagens aos pés (flexão, extensão ao nível do ante pé, do tornozelo e dos dedos, para manter a flexibilidade).
– Aplicar diariamente um creme hidratante, no caso de ter os pés secos com zonas endurecidas que favorecem o aparecimento de fissuras.
– Ter o bom hábito de não utilizar objectos cortantes (tesouras com pontas, lâminas metálicas cortantes?)
– Não utilizar calicidas
– Limar as unhas em vez de as cortar
– Evitar os factores de risco vascular: tabaco, mau controle glicémico ou lipídico, hipertensão
– Praticar exercício com regularidade

Diabéticos com arteriopatia e/ou neuropatia
Se existirem lesões nas artérias e/ou nos nervos dos pés então existe risco podológico. Deve aprender a proteger os pés.
De facto, se perdeu a sensibilidade dos pés pode ferir-se sem se aperceber. Em vez de tirar imediatamente um corpo estranho caído dentro dos seus sapatos, ou um sapato que magoa, usa-os todo o dia, e o ferimento agrava-se. Na medida em que não provoca dor, a tendência será para subestimar a gravidade da lesão.

Não esqueça a máxima diabetológica: pé insensível = pé em risco 
Apesar de todos estes riscos, os problemas graves dos pés não são inevitáveis! O ponto de partida é sempre uma ferida que não aparece espontaneamente e, portanto, pode ser evitada.

Como proteger um pé diabético fragilizado por arteriopatia ou neuropatia?

Aprenda a identificar os seis inimigos dos seus pés:
1. Primeiro, e antes de todos, os sapatos, e em particular os sapatos novos mal adaptados, muitas vezes demasiado apertados ou pontiagudos, ou então os sapatos de verão, amplamente abertos e que podem comportar corpos estranhos (pedras, areia?) que podem ferir. Desconfie também dos sapatos demasiado velhos que são muitas vezes causas de ferimentos (pregos no interior, forros descolados, buracos nas solas). Quando o pé está fragilizado, uma costura muito saliente ou uma prega de uma meia roçando no pé podem-no ferir.

2. A calosidade (hiperqueratose). Forma-se ao nível dos pontos de apoio ou de atrito provocando zonas de endurecimento na planta do pé ou calos ao nível das articulações dos dedos. Entre os dedos, na zona de atrito entre duas articulações, pode formar-se um calo, que se chama ?olho de perdiz?. Ao nível do calcanhar, a calosidade é responsável por fissuras ou fendas que acabam por infectar. Estas calosidades, calos ou fissuras são muito dolorosas nas pessoas que não têm lesões dos nervos da sensibilidade. Ao contrário, nas pessoas diabéticas que têm neuropatia estas lesões são totalmente indolores. Elas vão ferir a camada subjacente, originando uma bolsa sob a pele que acaba por infectar, formando um abcesso.

3. As unhas. Podem ser muito espessas e ficar apertadas dentro dos sapatos. Podem estar mal cortadas, ameaçando o dedo vizinho. Podem estar demasiado cortadas, ferindo a pele. Quando estão encravadas são particularmente difíceis de cortar.

4. A micose interdigital. Tratam-se de fungos que se desenvolvem entre os dedos quando a pele fica macerada. Provocam uma inflamação (a pele fica avermelhada) e depois aparecem fissuras que abrem caminho aos micróbios. É esta maceração e a micose que originam o mau cheiro dos pés mal cuidados.

5. O quinto inimigo, são os diversos corpos estranhos que podem cair nos sapatos ou introduzir-se em sapatos abertos: areia, pregos, agulhas, fósforos, peças de Lego, cotonetes, vidros? (todos estes objectos já foram encontrados dentro dos sapatos de diabéticos com neuropatia).

6. Por fim, um pé insensível pode ser queimado por uma botija de água quente, um cobertor eléctrico, um irradiador, uma lareira, pela água excessivamente quente do duche.

Examinar diáriamente os pés

1. Antes de se deitar examine cuidadosamente os pés, não apenas o dorso mas também a planta e os espaços interdigitais.
2. Se não tem destreza articular suficiente para ver a planta dos pés utilize um espelho colocado em oblíquo, encostado ao rodapé.
3. Se não vê bem, outra pessoa deve fazer este exame diariamente.
4. Se descobrir uma ferida, mesmo pequena, deve lavá-la com água e sabão, procurar a causa desta lesão, colocar um penso sem adesivo colado à pele e consultar o seu médico o mais rapidamente possível